2 de julho de 2017

Escravidão dos inocentes

Escravidão não é assunto do passado. Assistimos todos os dias o sofrimento cruel dos animais de carroça nas cidades. As pessoas não se interessam pela dor desses pobres indefesos. Por que o cavalo tem que trabalhar para alimentar homens? De onde vem essa lógica. Cansado, faminto, pés ferrados no asfalto quente, boca com freio que corta a língua, lombo ferido com o peso e pelo chicote implacável do carroceiro que se esquece que o cavalo não é uma máquina para correr no asfalto competindo com os carros. As patas do animal não foram feitas para o asfalto, a crueldade é tamanha, que esses animais vivem ou vegetam pouco tempo, para serem descartados e abandonados. Essa tortura diária,essa dor constante é só do cavalo, os homens fingem que não enxergam. Nunca entendi porque ainda continua essa escravidão de animais na cidade. Os animais das fazendas sofrem menos pois não precisam de ferraduras e nem andam no asfalto. A jornada de trabalho costuma ser menor. Será que ainda haverá justiça para esses sofredores. E as leis de proteção animal serão válidas? Sonho ver carroças, ferraduras e chicotes só em museus que lembrarão um tempo em que homens cruéis escravizavam animais..

10 de agosto de 2012

Avá-canoeiro, o retrato do abandono, por Walter Sanches

Palavras de quem convive de perto com uma familia massacrada pelo homem branco, onde perderam tudo , até a dignidade de viver como indígena. Emocionante relato do amigo Walter Sanches:
Quando apagavam-se as luzes do ano de 2009 (embora muitas já se acendessem para o "réveillon"), os índios brasileiros foram surpreendidos por uma triste e brutal notícia: através do Decreto nº 7056, publicado no dia 28 de dezembro, os Postos Indígenas da Funai estavam extintos. Esses postos, atuando em todos os rincões do País desde os tempos do SPI (Serviço de Proteção ao Índio), eram, praticamente, o único, visível e alcançável instrumento com que os índios podiam contar - e sempre contaram - na hora do aperto. Na terra Indígena Avá-Canoeiro, situada nos municípios de Minaçu e Colinas do Sul, Norte goiano, onde trabalhamos, o efeito foi devastador: a Barreira Fiscal de proteção à "reserva" e aos índios Avá (mantida, até então, pelo extinto posto) foi destruída por vândalos - que se encorajaram com o momento oportuno. Invasores sentiram-se à vontade para adentrarem a terra e nela instalarem-se, não havia mais obstáculo para isso. Sem recursos que lhes cheguem às mãos e sem ter como obtê-los, o pequeno grupo étnico Avá-Canoeiro hoje, dois anos e meio depois do tal decreto, doente e debilitado sobrevive da caridade pública e de ações filantrópicas - quando aparecem. Eles que já são sobreviventes de inúmeros massacres e emboscadas e de impactos ambientais causados pelas hidrelétricas em suas terras. Existe na Funai uma forte corrente contra aquilo que convencionou-se chamar de "paternalismo" ou seja: defensores da filosofia de que não se deve dar o peixe ao indivíduo e, sim, o anzol. Essa filosofia e esse procedimento, entretanto, não são válidos para os funcionários da Casa. Dependendo do cargo que ocupam, fazem questão de proteger, presentear e trazer de volta os velhos amigos aposentados, conferindo-lhes novos salários ou pagando diárias para quem nada tem o que fazer em determinados lugares - mas gosta de pescar ou "encher a cara" nas cidades do interior. Contanto que sejam todos da mesma confraria indigenista - e da mesma escola. O antipaternalismo desses servidores só funciona em relação aos índios. É certo que a instituição já vinha "capengando" ao longo do tempo, mas o Decreto 7056 quebrou sua espinha dorsal. E os problemas sociais decorrentes da falta de acesso às políticas públicas voltadas à valorização e a autosustentabilidade dos povos indígenas têm levado a casos extremos, como os dos diversos suicídios ocorridos nos últimos anos entre jovens Karajá, na Ilha do Bananal/TO. Esse descontrole emocional, segundo relatam familiares das vítimas, é causado pelo abandono por parte do Estado, pela falta de perspectivas e ações que possam promover a saúde, a educação, o esporte e a profissionalização dos jovens indígenas. Não há Regimento Interno na Funai, e seus próprios servidores não são capacitados para o exercício de suas funções - assim como não existem critérios técnicos para a distribuição de cargos em comissão. E, por ironia da sorte, o Decreto 5076/09, arvorando-se em reestruturação do órgão, desmantelou o pouco que ainda funcionava com o aprendizado dos anos - cabendo às comunidades indígenas a penalização maior. Walter Sanches é Técnico Indigenista

10 de junho de 2012

ERA UMA VEZ UMA FLOR
Para alguns, a vida é tão somente um cemiterio de ilusões, para outros, um atalho para a ilusão.
Pelas mãos de Bach, como outra "ilusão", tratei de ser essa flor que sonha.
Nasci com meu corpo submerso em uma terra desconhecida. Uma terra que - sem saber por quê - mantem-me em cativeiro. Em meus breves dias vi a trajetoria da mesma abelha. E senti da doçura e o fustigar do vento, que me faz estremecer e ameça quebrar-me. A cada amanhecer - ao despertar - meu coração se enregela com o orvalho. E não compreendo por que há um novo amanhecer. Por que - pergunto às outras flores que me acompanham desde sempre - , por que a solidão das noites sucede o fogo do crespúsculo? Por que mnha "alma" estremece com o sonho da liberdade se, na realidade, vivo na terra e pela terra? E meus "companheiros" de margem de rio não souberam o que responder. - Sempre foi assim - explicaram-me em sua própria solidão. - Esqueça esses sonhos impossiveis. Contudo, continuo vendo as águas que passam à minha frente, no rio misterioso que sempre esteve ali e que a cada dia alimenta mais minhas esperanças de liberdade e sabedoria. As velhas flores, espantadas, rejeitam minha ideia. E perguntam-se por que não conformar-se com a terra que nos alimenta e com a paisagem que nos envolve. Por que pensar? Aquelas águas que por vezes borrifam minhas pétalas parecem enfeitiçadas. E algo me impele a saltar em seu leito. E buscar novos horizontes. E conhecer novos mundos. Sonho deixar-me levar pela correnteza. Por esse jorro de vida líquida que ali está, desde a eternidade de minha pequenez. E que sempre passa, como um chamado entre pedras e juncos. Como um sinal. Quase como um brado. Como um aviso de que existe outra vida. Como um clarim sem cor que clama, pede e implora, chamando a atenção para o barro de nossa existencia, para o absurdo que são essas raizes que me paralisam em um mesmo ponto da terra. Impulso irrefreável de caminhar toma conta de mim. Impulso de escapar desta margem da Vida, onde tudo permanece imóvel, e conhecer novos horizontes. E uma manhã, aquela flor diferente - que sonhava mais do que as outras - tomou uma decisão. E saltou sobre o leito do rio. Por muitas horas as águas arrastaram-na desordenadamente. Mil vezes sentiu-se morrer. Sentia uma força avassaladora. - Ela enlouqueceu - comentavam umas com as outras. - Vai perder tudo que tem. Vai morrer. Mas a pequena flor de pétalas avermelhadas continuou avançando para o centro da correnteza. E pouco a pouco - quase como se ocorresse um milagre - começou a sentir inaudita paz. Chegara a um enorme lago. Um mundo desconhecido, mas belo. Um mundo de sensações. Um mundo onde tudo era movimento e luz... E a flor sentiu-se feliz. Agora sim era livre
J. J. Benitez

9 de junho de 2012

Lago Serra da Mesa

Calor, sons, gritos e bêbados, uma mistura de poluição sonora e ambiental. As águas do Lago revolvem tentando vomitar a sujeira abafada pelo som mecânico e profano. O menino de 12 anos fuma um baseado, a moça mostra o bumbum e os rapazes sacodem o corpo e a cabeça. São indiferentes à vida que se mostra no azul do céu ao entardecer...

23 de maio de 2012

SENTIDOS
Dispersei versos por ai... Voei e fui feliz, um longo caminho percorri... Vozes e faces carrancudas me arrancam do torpor Aterrizei num mundo de pessoas civilizadas que não sonham mais... A poesia ficou ridícula, os homens não apreciam, são máquinas em busca de dinheiro Cabisbaixa segui e tropecei num menino que cantava e sorria. Esqueci os homens-maquinas e voltei a ter sonhos de pássaros e crianças.

4 de agosto de 2011

III SEMANA DO FOLCLORE SERRA DA MESA





O Memorial Serra da Mesa promove de 7 a 11 de Setembro, a III Semana do Folclore. O evento receberá grupos culturais do norte goiano e de várias partes do Brasil.
O Encontro de Folias, Festival de Piadas, Rodas de Prosa, Fiando e Cantando com as Fiandeiras locais e de Alto Horizonte, Zé Capeta e Glória Berranteiros, Casamento Caipira, Viola Afinada, Chimite, Dança do Passarinho, Gastronomia da roça, Feira de artesanato, Oficinas de moagem de cana-rapadura-melado, Cavaleiros de Santana, Congo Santa Efigenia, Pedro Serra da Mesa e apresentações das escolas municipais, estaduais e universidades da região.

Entrada grátis, paga o que consome.

Area de camping para alugar - fone 6281301136
memorialserradamesa@gmail.com

22 de janeiro de 2011

Qual será o dia do indio?

Para falar do indígena começo com esse pensamento de Orlando Villas Boas.

"Em vez de querer ensinar aos índios, o homem branco deveria ter a humildade para aprender com eles que o velho é o dono da história, o homem é o dono da aldeia e a criança é a dona do mundo".

Na minha pouca convivência com indígenas aprendi lições que me acompanharão sempre: de como o índio sabe conviver com a terra, o meio ambiente e com o próximo.

Embora se diferenciem no modo de falar , pintar o corpo e outros detalhes, os indígenas em todo planeta têm em comum o respeito pela criança, pelo velho e a vivência em grupo onde as decisões são coletivas.

Qual será o dia do índio, quando eles serão reconhecidos como a nação que tem lições para o homem que se diz civilizado e arrasa com a natureza?

Ano de 2009 e o homem branco continua com as ações impensadas contra o índigena e o meio ambiente.
O avanço da tecnologia e o capitalismo a cada dia mais empurram o índio, os bichos para um abismo sem volta.

Todos os dias devem ser lembradas as lições do krahô, do korubo e tantos outros que vivem ainda em pequenos torrões de terra amedrontados com um futuro que está nas mãos do homem branco.

Amanhã se comemora o dia do índio, e nada melhor para refletir sobre sua situação com o texto que transcrevo aqui do indigenista Walter Sanches:

"Os índios Avá-Canoeiro, habitantes da região de Serra da Mesa, norte goiano, compõem atualmente uma família de seis pessoas. Eram quatro, quando em julho de 1983 renderam-se aos fazendeiros locais. Perseguidos e dizimados, a sina dessa Etnia coloca hoje seus sobreviventes em circunstância atípica entre os demais e não menos aviltados povos indígenas brasileiros.

Em 1990, quando cheguei para trabalhar no Posto Indígena de Atração Avá-Canoeiro, encontrei-os – quatro adultos e duas crianças – comendo açúcar cristal em panelas de alumínio e bebendo óleo de soja em copos de vidro, deliciados com as recentes descobertas gastronômicas e das quais ainda não haviam assimilado a prudência do uso.

No posto da FUNAI existia um fogão à gás, e as mulheres, não raro, detinham-se diante dele, acariciando o bujão e sonhando ter um igual na “oca”. “Este fogo bonito, bom muito!” - murmuravam diante da chama azul. Iawí, único homem adulto do grupo (o outro era Trumak, seu filho, de 3 anos) sonhava, por sua vez, com uma casa de telhas francesas. “Buriti presta não”, costumava dizer, referindo-se aos telhados regionais feitos com a palha dessa palmeira, que, devido aos novos hábitos alimentares – leia-se sal e açúcar – tornavam-se o esconderijo/criatório escolhido por milhares de baratas infernizando a vida doméstica.

Sua morada, que achávamos por bem continuar chamando de “oca”, não passava de um triste e frágil casebre coberto de folhas de zinco, entulhado de molambos e trastes inúteis, o lixo cultural adquirido da sociedade envolvente, não tendo para eles grande importância e sim para os répteis e insetos que dali faziam seus pontos de proliferação.

Aceitavam como amigos, tutores ou anjos da guarda aqueles que devassavam e depredavam a terra indígena ainda não demarcada. Conviviam amistosamente com caçadores e pescadores vorazes, muitos vindos de longe no faro dos últimos tamanduás, tucanos e jaús, numa matança infernal a que eles, índios, entre a apatia e a perplexidade assistiam calados. Nunca, entretanto, demonstraram disposição para voltar à mata em busca da dignidade, da autonomia e do sossego perdidos; já traziam intransponível dependência da sociedade regional, etnocêntrica e perversa, mesmo assim arvorada em “aculturá-los”.

E fugir, para onde? Onde quer que se escondessem haveria um minério a ser garimpado por estranhos, uma fazenda a ser instalada, estradas ameaçando romper a aldeia, eventos que para eles jamais trouxeram qualquer benefício, e, de concreto, apenas o genocídio.

Como esperar uma reação libertadora daquela Nação mortalmente ferida, reduzida a quatro viventes, havendo travado seus primeiros contatos conosco somente nos anos 80, rendidos e traumatizados por nossa truculência emocional e tecnológica? Cabia-nos, evidentemente, garantir àquele pequeno grupo étnico o máximo de segurança para continuar vivo e conseguir transpor, com a força dos derradeiros resquícios culturais ainda mantidos, os grilhões da nova e sutil emboscada em que vieram a cair, porque o resto fazia parte de um passado cada vez mais remoto.

Hoje, a Terra Avá-Canoeiro, ainda distante da homologação, serve de palco para a festa das hidrelétricas. Terrenos fundamentais para roçados submergiram a imensos lagos artificiais, enquanto longos e perigosos corredores de fios de alta tensão vão multiplicando-se dentro da “reserva”. Tudo sem qualquer ressarcimento efetivo e honesto que busque minimizar tamanha e indesejável interferência no mundo e na vida dos índios atingidos. E eles também sobreviveram a essa realidade, porém, não se reproduziram mais. A quem, de sã consciência, ocorreria deixar para seus filhos uma herança dessas?"



Amigo Walter continuo dizendo:

... durante séculos o homem branco deixou como herança para o indígena uma grande solidão e um futuro incerto.

9 de janeiro de 2011

Meu curriculo

A MAGIA DE ESCREVER

Embora seja apaixonada por poesia, - a cada instante me nasce uma e assim sinto a vida crescendo, ficando longa, às vezes eterna...
Ler e escrever para mim é como respirar, viver, não poderia ficar sem. Os livros me vieram numa época distante, quando ainda eram proibidos (pela mãe), tive o privilégio de ser curiosa quanto à eles, driblando todos e lendo tudo que as mãos e os olhos alcançavam. Acredito que a vontade de ler era tanta, que misteriosamente eles me chegavam, como que atraídos.
Sempre quis incutir nas pessoas à minha volta o hábito da leitura. Diante disso fui registrando fatos corriqueiros, datilografando e passando para os vizinhos, parentes, e assim, achavam mais fácil que os poemas e liam com avidez, até mesmo quem radicalmente era contra queria soletrar os causos que eram próximos de sua realidade, de linguagem acessível; e inconscientemente adquiriam o hábito da leitura, nem que seja dos causos familiares à eles. Cobravam por mais e eu escrevia o esboço da vida de cada um, nascendo leitores e escritores que me mapeavam textos. Foram muitos textos e o contato com essas pessoas me fizeram crescer e viver mais.
Tenho o curso primário (4ª série ) incompleto, o que me vale é a curiosidade quanto aos livros, ao saber, à vida.

As palavras me entraram e ficaram como por milagre, assim como a poesia hoje nasce rápida, sem métodos e técnicas, também a escrita veio sorrateiramente como um veio d’água inundando a vida. É uma paixão pela palavra, pelo poema, levando os sonhos ao papel, e aí insisto, é mágico.

Referências
Causos e estórias 2 volumes pela UCG
terceira em edição
Poema em antologia –Ed Kelps Goiânia
Poema em Antologia – Ed Andes – DF
Cronista Oficial dos Encontros de Culturas da Chapada dos Veadeiros
Cronista do Overmundo site patrocinado pelo Ministério da Cultura www.overmundo.com.br
Pesquisa com os Krahôs Tocantins pela Universidade Federal de Goiás – FACOMB
Presidente da Comissão de Folclore da Região de Serra da Mesa – Comissão Folclore Estadual – Bariani Ortêncio
Pesquisadora para o Museu de Alto Horizonte
Livro em edição “Memórias de Serra da Mesa” (rascunho)
Coordenadora do Memorial Serra da Mesa

MOMENTOS

A rua repleta de gente desperta para a realidade de uma multidão de pessoas que falam línguas estranhas, indiferentes ao pequeno, ligadas às futilidades esquecendo, sobretudo a vida...
O carroceiro levanta forte o chicote, o esqueleto magro do cavalo sobe a avenida puxando a carroça de areia, ele tem alma que o carroceiro não vê...
O pequeno engraxate entra e sai das lojas comerciais, seu rosto criança corre atrás de dinheiro e até mente dizendo que só engraxa no final de semana... O que ele esconde por trás dos olhinhos tristes? Não é só ir para o Muquém...
O bêbado é dono da rua, disfarça sua dor na embriaguez, só assim ele é maior e eterno...O cachorro faminto o segue em círculos...
Volto pra casa cansada de tudo e ao chegar escuto o gemido do córrego que insiste em correr fugindo do lixo, dos esgotos e do homem...
O calor é insuportável, minha dor é maior... O vento carrega o mau cheio do esgoto, enxuga as lágrimas e foge rápido para não testemunhar a imbecilidade do homem...
Minha casa é grande demais hoje, porém não cabe as lágrimas...
Consulto o espelho e ele mostra as olheiras que refletem os anos, o cansaço e a solidão...
Escrevo, brigo, denuncio para fazer um mundo melhor; mas quando tento encontrar o outro dou de cara comigo só, muito só...

30 de novembro de 2010

Mãe e o abraço no tempo

O vento balança os galhos,
Balança os pássaros da noite
E meus cabelos sonâmbulos.
Faz muito frio agora...
Véspera do dia das mães.

A noite é longa de imagens saudosas.
Os dias passaram,
Os filhos cresceram
Sem que eu percebesse que ficava só...

Onde estão meus meninos?
As camas estão vazias na mente,
A casa é grande e escura,
Meu abraço não os cobre mais,
São homens agora...

O frio aumenta a lembrança.
Abro os braços na tentativa
De voltar no tempo.
O vento insiste, sacode tudo, até a alma...
Aumenta a saudade e fico só...
com o frio e os braços abertos,
na longa noite sem abraço...

ENTREVISTA SOBRE O MEMORIAL SERRA DA MESA

ENTREVISTA PARA UNIVERSIDADE ESTADUAL DE GOIÁS DE URUAÇU, CURSO DE HISTÓRIA, ACADEMICA JOSIANE DAS GRAÇAS ADORNO PARA UMA MONOGRAFIA SOBRE O MEMORIAL SERRA DA MESA

1 – Como foi seu primeiro contato com a idéia sobre a construção do Memorial Serra da Mesa e qual foi nesse momento inicial a sua relação com esse grande projeto?
Meu primeiro contato com a idéia de preservação da cultura e da história vem de longa data. Desde menina me interessei pelas histórias dos mais velhos e das cidades e assim sempre escrevi registrando a realidade das pessoas de classe baixa, da qual também faço parte. Através de uma ex-patroa e amiga (Veronica Aldé), esses manuscritos foram para Universidade Católica de Goiás, atual PUC e o professor Altair Sales Barbosa como diretor do ITS autorizou a publicação de uma revista de causos.
O lançamento da revista de causos foi na cidade de Uruaçu no hotel Flamboyant dia 24 de novembro de 2004 e contou com a presença maciça de uruaçuenses e autoridades locais. Nesse evento a Prefeita na época, Marisa P Araujo ficou conhecendo a equipe do ITS, inclusive o professor Altair e conversaram sobre o que poderia ser feito para minimizar os impactos ambientais causados com a construção do Lago de Serra da Mesa e a idéia do professor Altair foi a construção de um Memorial que contasse toda história da região de Serra da Mesa, nesse dia então nasceu a idéia do Memorial Serra da Mesa.
Começou então a árdua tarefa de se conseguir recursos financeiros, material histórico para efetuar o projeto feito pelo ITS. A Prefeitura em parceria com UCG buscou recursos nos Ministérios, Furnas, CEF, Banco do Brasil e algumas emendas parlamentares. A Pedra Fundamental foi lançada em 2006 e o Memorial foi inaugurado em 26 de setembro de 2008.
2- Quem, no seu ponto de vista foi o maior incentivador (a) deste projeto e quais eram suas justificativas para se fazer um Memorial desse porte nesse lugar?
No meu ponto de vista o Memorial existe por uma idéia do professor Altair que foi acatada pela prefeita Marisa que com muita garra lutaram para que o projeto se concretizasse. Porem várias pessoas dedicaram de corpo alma a esse projeto como o arquiteto Louis Bernard Tranquilin, o geólogo Alan Kardec, a musicista Veronica Aldé, o professor Hidasi com animais taxidermados e eu com uma pesquisa séria querendo que esse Memorial existisse e fosse concretamente a alma da região.
3- O que é o Memorial Serra da Mesa para você? Da pesquisa que você realizou, da coleta de materiais que hoje faz parte do acervo do Memorial e nesse processo de coleta e pesquisa à montagem da instituição guardiã, como você definiria hoje o sentido do seu trabalho? E diante desse mesmo processo no qual você é pioneira na região, como definiria hoje o Memorial como instituição cultural localizada, acha que o turismo cultural agregado ao Memorial será suficiente para preservar a sua pesquisa e, mais ainda preservar a memória do lugar?
O sentido do meu trabalho está na mudança de atitudes que posso testemunhar desde a construção até os dias atuais na rotina do Memorial Serra da Mesa. Professor Altair trouxe seus conhecimentos, suas pesquisas sobre o bioma cerrado e enriqueceu o museu. A coleta que fiz do acervo trouxe uma pesquisa aprofundada do modo de vida do homem do cerrado ou seja da região de Serra da Mesa. A convivência com os doadores enriqueceu meu modo de ser, de pensar e até de viver e agora no Memorial isso pode ser transmitido a milhares de pessoas. Hoje o Memorial é uma das maiores instituições culturais do norte goiano e freqüentado por pessoas de todas as partes do mundo, o que pode ser comprovado no livro de visitas. Então hoje esse espaço se consolida como o atrativo turístico cultural mais bem freqüentado da região. Todos os grupos que o visitam, têm comprovadamente mudanças de atitudes quanto à preservação da história, do meio ambiente e até para consigo mesmo. A visita guiada é a oportunidade de reflexão única, até mesmo alunos que são tidos como displicentes, nos espaços temáticos do Memorial eles participam e seus depoimentos são arquivados como exemplos para as futuras gerações.
4- Descreva-nos como você percebe cada um dos espaços internos que compõem o Memorial
O Memorial é espaço para reflexão desde a pedra fundamental, cujo propósito é ser aberta de 100 em 100 anos, só isso já deixa claro ao visitante que a vida vai muito alem dos poucos anos aqui vividos, o que é comprovado na seqüência com a amostra de arvores fossilizadas com aproximadamente 240 milhões de anos. O Museu mostra desde o tempo geológico quando só existiam as rochas e numa seqüência histórica leva o visitante a uma viagem pelo tempo refletindo sobre a formação do cerrado, dos indígenas e seus costumes, a do homem e do progresso conscientizando para a degradação do meio ambiente, principalmente a água. Os outros espaços dão continuidade à essa reflexão onde o visitante aprecia o passado comparando ao presente e assim se colocando como ser responsável pelo equilíbrio da vida na terra.
5 – Como você percebe esse projeto turístico cultural hoje? O projeto atende sua pretensão? O projeto é amparado por quais instituições? Quantos funcionários ele mantem? Sua manutenção é estável?
Atualmente esse projeto está apenas no inicio, o Memorial é um local de pesquisa contínua e necessita de toda a comunidade para atender sua pretensão. Hoje contamos com a parceria da UEG Uruaçu, UNB DF, FASEM Uruaçu e ITS_PUC com estagiários e técnicos que participam auxiliando no dia a dia do Memorial. O numero de funcionários é escasso para o tamanho do empreendimento, mas mesmo assim o espaço está limpo e bem cuidado e bastante visitado. O acervo aumentou em mais de 200 peças no ano de 2009 e a formação de profissionais é continua através do Ponto de Cultura do programa Cultura Viva. Temos 5 eventos no ano, todos com grande público de várias c cidades. Temos artistas filhos do Memorial e várias manifestações culturais já desaparecidas que foram resgatadas e são transmitidas nas escolas e nos eventos, enfim, somos reconhecidos em todo o mundo.
6-Quais são os nomes que você citaria que jamais poderiam ser esquecidos no que se refere a construção do Memorial Serra da Mesa? Por que?
Os nomes que poderia citar aqui dariam uma lista enorme e poderia ficar alguém de fora. Considero importante lembrar que sem a idéia do professor Altair e sem o empenho da prefeita Marisa o projeto não existiria. Eu trabalhei muito, mas não teria força política para isso. Somente um órgão público, uma prefeita que pensasse em cultura e um cérebro privilegiado como do professor Altair Sales Barbosa poderiam fazer surgir um monumento de tamanha grandeza. Mas confesso que a alma que esse monumento possui tem muito das doações, das histórias que recebi do povo de Serra da Mesa; uma alma que engloba os causos do Caxá, a benzeçao da dona Izabel, a voz dos foliões, as memórias do Ze Gomes Guarani, do seu Antonio da Colher de Pau, do Seu Chico de Trairas, do Vozinho de Porangatu e de tantos outros que participaram da minha pesquisa que nada mais era que uma busca no tempo pela preservação da história e do meio ambiente.

19 de outubro de 2010

ओ लूला कुए एउ CONHECI


O LULA QUE EU CONHECI

Aqui no cafundó do Brasil as noticias chegam pela Tv, principalmente a Globo porque essa não precisa de parabólica, então como o pessoal não tem costume de ler jornal, a Tv é a informante oficial.

Ficamos sabendo o tempo todo que o Lula analfabeto, pinguço e outras mais estava só roubando do Brasil, então fomos desconfiando que isso não podia ser porque nossa vida está melhorando, podemos ter um padrão de vida de gente civilizada.

Eu, a autora dessas linhas fiz as três primeiras series e o gosto pela leitura me fez conhecer o mundo. A Tv globo não conseguiu me prender frente à telinha e o meu maior tempo é frente aos livros e analisando a realidade vivida.

Convivo com indígenas, com a comunidade mais pobre e com essas pessoas aprendi mais que em qualquer universidade. Trabalhando com o folclore tive a grata surpresa de ir bem pertinho do Lula, no dia em que o espaço Memorial Serra da Mesa foi reconhecido como uma das melhores práticas em Goiás, espaço que coordeno num trabalho voluntário.

A reunião no Teatro da Caixa foi de muita curiosidade para ver de perto aquele homem que é motivo de tanta polêmica. Ele iniciou a falar, logo jogou fora o papel e começou o discurso informal. A linguagem clara, o jeito menino me chamou a atenção, seu discurso foi seguro e sem desenhos de palavras difíceis.

Na hora da foto com ele, alguém o chamava, ele retrucou:

- Ah cabra agora que vou tirar foto com ela, fica me chamando, o povo ta aqui pra conhecer o prisidente, então deixa!

Sem cerimônia o Lula se mistura ao povo, esse povo que até então morando nos cafundós não se destacava, a cultura era só para Rio, São Paulo e alguns outros.

Então o Lula que eu conheci levou a senhora do boi do Maranhão, o catireiro da roça, o contador de causo dos confins do sertão e nós do cafundó de Goiás para o patamar de agentes da cultura, temos valor e alguns até são chamados de mestres. Esse Lula enfrentou a causa da classe pobre e hoje é considerado o presidente mais popular do mundo.

Sir Odussein do governo de Agege (Nigeria) no X Encontro de Culturas Chapada dos Veadeiros me disse:

- O Brasil tem que saber que o presidente Lula é um gênio e não nascem gênios todos os dias...

Agora esse gênio indica Dilma para continuar seu trabalho e a oposição critica que ela não fará o mesmo e chovem denúncias de todo tipo. Mas dentro da simplicidade aqui do cafundó aprendemos a conhecer o outro pelo olhar, e olhando de perto o Lula não acredito que ele ia investir todos os esforços em eleger alguém que não fosse confiável.

Então pelo sucesso da cultura atual, pelo bem estar dos mais pobres, pela visão que o mundo tem do Brasil e acima de tudo por acreditar que o Brasil começou uma nova era, acato a decisão do gênio Luis Inacio Lula da Silva.

18 de junho de 2010

PRÊMIO DESTAQUE CULTURAL DO ANO 2009

Nara Leão canta suavemente “Cuitelinho”..
...a tua saudade corta como aço de navaia, o coração fica aflito, uma bate outra faia...
O peito faia também...
As lembranças ressurgem lentas e marcantes. O pássaro preto escandalosamente grita vigiando o ninho, desafiando dezenas de visitantes:
Me atrapalho com a tinta à base de jenipapo, quero aparecer toda pintada para receber o “Diploma Destaque Cultural do Ano 2009”.
Na realidade esse prêmio não é meu e sim de muitos, os quais adentrei suas vidas e contei a história, o causo do fundo da alma de cada um...


Como a benzedeira que carrega o corpo com a benzeção, eu carrego as dores, as vozes, os sonhos de todos: quilombolas, foliões, idosos, crianças de rua e acima de tudo, dos indígenas... Sou parte deles.

E então pintada, sou todos eles..

Vou contente pegar o diploma, meu rosto pintado representa a alma dos considerados pequenos, mas que são tão grandes, capazes de ensinar o homem a viver de verdade, a começar tudo de novo...
Vou calma e feliz... não sentirei o peso dos anos: eles estarão mascarados de tinta e de felicidade...

O prêmio é nosso...

SOU ASSIM...


SOU ASSIM, Mulher...

Sou assim...
Frágil e forte
Dependente ou não.

A cada situação renasço um pouco...
A dor lapida a alma e tudo é saudade.

Sou uma flor, um gigante,
Às vezes uma menina travessa,
Sou mulher...

Desafio a indiferença do mundo
E choro diante de um gesto de amor.

Enfrento a morte como se enfrenta o dia,
Às vezes tão longo...!...!...

A espera do amanhã é suportável
Diante da mão amiga,
Do sorriso da criança...

E a vida cresce,
O sonho toma asas,
Em meu coração menino,
De mulher...

Sinva